sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

GUERREAR



          Mais difícil que vencer a guerra é vencer o hábito. O hábito faz a guerra, mas também a paz. Muitas pessoas não entendem a sensibilidade, querem buscar a sabedoria pela ignorância. Mas a gente não pode ser nem muito sensível nem muito sábio, há que se ignorar muito para se ter um espírito forte. Às vezes ignorar o corpo para a alma, desprezar o sentimento em prol de uma palavra de ordem, ser forte o suficiente para acreditar sem pensar, e amar ainda que não se possa...

          É difícil ser feliz se é necessário pagar, vender, comercializar pela liberdade. Ainda que fiquemos livres de quem nos manda, existirá o mercado, o trabalho, o animal que temos que castrar e domesticar, tirar as tripas e rezar por sua alma. Se nós nem podermos ser um pouco cruéis, dificilmente seremos realizados e amados. O triste é que até no amor é preciso guerrear, até no sentimento mais puro é preciso labor, é imprescindível trabalhar. Mas um "homem também chora, menina morena, também deseja colo, palavras amenas, precisa de carinho, precisa de ternura, precisa de um abraço da própria candura.
          Guerreiros são pessoas, são fortes, são frágeis. Guerreiros são meninos, no fundo do peito. Precisam de um descanso, precisam de um remanso, precisam de um sonho que os tornem refeitos". Preciso de um bom pente, ficar rente, sem corrente, pingente, subir andaime acima, mente acima, sempre. Mas tudo tem um preço: pagar. Quanto mais eu gasto mais me sinto no prejuízo. Meu Deus, eu estou amando. Preciso correr riscos. E não consigo levar esse amor nos meus ombros, mas preciso do amor nos meus braços.
            É tão triste não conseguir guerrear por sonhos. É tão ruim apenas sonhar. É como um reflexo do nosso rosto na água: vai se apagando aos poucos... Porque as águas têm que correr. E depois que elas corram, na guerra, a gente precisa aprender a sobreviver do que passou. A saudade pesa. O rifle pesa. O uniforme pesa. Ser cruel pesa. Mas ser homem é o que mais dói.

Por Vitor Anchieta Sales

Um comentário:

  1. Gostei muito do texto, faz muito sentido com situações que tem passado ultimamente. Um animal selvagem, arredio, que quer ser domesticado.

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